Para aqueles que amam a leitura, chega a ser quase física a dor que se sente, por saber que muitas pessoas não leem por falta de acesso aos livros. Essa realidade é ainda mais cruel quando a dificuldade resulta de uma deficiência visual. Neste caso, não se trata de bibliotecas inexistentes ou com acervos desatualizados, mas estar com o livro nas mãos e não o poder ler.
Penso em todos os lançamentos que chegam quase que diariamente às livrarias, e fico imaginando quantos serão transcritos para o Braille. Acredito que pouquíssimos, e, se o forem, terão tiragens muito pequenas e portanto insuficientes. Por sua vez, os livros escritos em Braille são enormes, ocupam muito espaço, sendo praticamente impossível montar uma biblioteca particular com eles.
Mas e se os livros fossem gravados? Fiz uma pesquisa rápida, na internet, sobre a oferta de áudio-livros no mercado nacional. Encontrei alguns códigos de Direito, alguns livros espíritas e muitos cursos de línguas estrangeiras. Quanto aos livros mais vendidos na semana (Inferno de Dan Brown, A culpa é das estrelas de John Green, a biografia de José Dirceu escrita por Otávio Cabral e Kairós do Padre Marcelo Rossi), não encontrei NENHUM no formato áudio.
As grandes editoras nacionais já começaram a disponibilizar os lançamentos em modo digital, mas se um portador de deficiência visual quiser ler o que está ”na crista da onda” vai precisar contar com a boa vontade de um amigo ou parente, para que grave o livro desejado.
Recentemente conheci AnaLu Palma, uma carioca, de sorriso largo e generoso. Em 2002 ela criou o projeto Livro Falado que, até hoje, procura incluir os portadores de deficiência visual no mundo apaixonante e inesgotável da leitura.
Contando com o apoio do poeta Ivan Junqueira e a colaboração de vários ledores*, foram gravados diversos livros escritos por membros da Academia Brasileira de Letras do RJ. Depois, essas obras foram reunidas e viraram 42 mil CDs distribuídos gratuitamente pelas audiotecas de todo o Brasil.
AnaLu encontrara um mercado sequioso de “livros falados”, mas percebeu também que faltavam ledores, e aqueles que liam e gravavam por conta própria o faziam de forma amadora e desordenada.
Foi então que o projeto entrou em uma segunda fase e oficinas foram montadas para capacitar novos voluntários.
Apesar de não existirem regras formais de como gravar um livro, AnaLu procurou padronizar a gravação, de tal forma que o portador da deficiência visual tivesse a certeza de que escutaria uma cópia, a mais fiel possível, ao livro que fora escrito em tinta.
Inicialmente gravavam-se os livros em fita K7. Não era a forma ideal, porque com o passar do tempo a fita magnética podia quebrar ou mofar, e a qualidade do som deixava sempre a desejar – a não ser que a gravação fosse feita em estúdio, o que gerava custos imprevistos.
Corria o ano de 2008 quando AnaLu conheceu o programa de computador Audacity. Foi uma revolução! Além de ser baixado gratuitamente da internet, agora era possível gravar e editar o texto sem sair de casa. Gaguejos e tropeços, palavras “comidas” e ruídos de fundo indesejáveis sumiam com o teclar de alguns simples comandos.
Com o novo programa o ledor não precisava mais entregar pessoalmente ou se deslocar até o correio para enviar os livros gravados. Tudo era mais fácil, bastava transpor os arquivos das gravações para o formato MP3 e enviá-los por e-mail. Simples assim!
Graças aos patrocínios da Universidade Estácio de Sá e do Ministério da Cultura, AnaLu Palma oferece cursos – com duração de 1 mês em encontros semanais de 3 h – para capacitar voluntários que têm interesse em gravar livros utilizando a nova ferramenta.
Eu fiz o curso e amei! Inicialmente a novidade pode intimidar um pouquinho, mas nada que não se resolva na segunda aula. O importante é “brincar” muito, sem medo de errar, acostumar-se à própria voz (o que é sempre muito esquisito) e tirar as dúvidas na aula seguinte.
Depois é sair “plantando” livros por aí afora, e aguardar a chegada dos novos leitores-ouvintes.
* Aquele que lê para alguém
- Projeto Livro Falado
Responsável: AnaLu Palma
(21) 2549-6376
Que projeto mais lindo, Paula. Vamos divulgar isso… beijo!
Oi Ju,
O projeto é mesmo muito bonito.
AnaLu ministrou uma oficina na UFBA ano passado, tomara que volte logo.
Obrigada por divulgar!
Beijo
Quero muito participar! Só posso aos sábados pois moro no interior do Estado do Rio.
Oi Everaldo,
realmente este projeto, patrocinado pela Estácio, é muito bonito. Quando fiz o curso tinha uma oficina sendo ministrada sábado de manhã. Entre em contato com AnaLu (21) 2549-6376 e veja quando serão e quais os horários das próximas turmas.
Boa sorte!
quero participar, moro em curitiba pr como faço