Em 2023 reencontrei, em Lisboa, amigas de colégio que não via há quase cinquenta anos. Foi curioso reconhecer as colegas de infância nas senhoras que me abraçavam, e saber das escolhas que cada uma tomou na vida. Para quem observasse de fora parecíamos crianças, felizes por nos encontrarmos, depois das férias, no primeiro dia de aulas.
Desse nosso encontro surgiu o grupo, no WhatsApp, Estou Chegando. Acredito que recebeu esse nome por minha causa. Afinal, sou a única que mora no estrangeiro, mais precisamente no Brasil, e em Portugal usa-se muito pouco o gerúndio.
Uma das participantes, apesar de ter uma vida superativa (é pediatra em um hospital distante de onde mora), todos os dias posta uma fotografia acompanhada de um texto inspirador. As fotografias podem ser de suas caminhadas com o cão à beira do rio, e os textos são de escritores e poetas os mais diversos. Recentemente, ela colocou uma poesia que me agradou muito.
Se os olhos estão apressados
não sorriem.
Não descansam relaxados,
em céu azul clarinho.
Não percorrem itinerários queridos
Não brilham tranquilos
Se os olhos estão apressados
não fazem carinho. Não notam
miudezas. Não nos contam
novidades. Não passeiam
felizes, por jardins.
Não procuram passarinhos
Não procuram borboletas
Se os olhos estão apressados,
desperdiçam delícias
Ana Jácomo
Nunca tinha ouvido esse nome antes. Ao pesquisar na internet, descubro que Ana (Cláudia) Jácomo, além de escritora e poeta, foi funcionária pública no Rio de Janeiro. Procuro pelo seu Instagram. Em uma postagem de 2024, ela comenta toda feliz que o médico havia-lhe retirado a traqueostomia. Leio em outro lugar que Ana sofreu uma parada cardíaca e entrou em coma. Amigos e admiradores lamentam nas redes sociais a perda prematura da poeta, aos 58 anos de idade.
Quero conhecer a sua obra. Desliso o dedo pelo feed. São textos simples e delicados. Lendo-os tenho a impressão de beber pequenos goles refrescantes de entusiasmo e ternura. Pesquiso mais um pouco. Ana Jácomo publicou dois livros: Cheiro de flor quando ri e Imensas coisas pequeninas.
Sorrio para mim mesma. Achei dois tesouros. Eles serão as boias que me ajudarão a não submergir nos tempos encrespados em que vivemos.
