
Ano passado fez cinquenta anos que vim para o Brasil, com os meus pais e irmãs mais novas.
Quando aconteceu a Revolução dos Cravos, em Portugal, eu era uma garota (miúda) de 13 anos, que estudava em um colégio de freiras. Do famoso dia 25 de abril lembro-me de chegar ao colégio, na camioneta (ônibus) da instituição de ensino, e ter que voltar para casa, assim como todas as minhas colegas, porque não teríamos aulas. A comemoração desse “feriado” inesperado foi grande.
O navio que me trouxe para o Brasil atracou, no cais do Rio de Janeiro, às vésperas do feriado de Tiradentes, um herói brasileiro, de nome engraçado, do qual nunca tinha ouvido falar. Em Portugal, faltavam poucos dias para se comemorar o primeiro aniversário da Revolução.
Mesmo vivendo por pouco tempo o pós 25 de Abril, foi possível saber as razões que levaram o exército português a se sublevar: a guerra que travavam na África, para manter as colônias, era insustentável. Além disso o país passava por uma grave crise econômica, havia uma forte censura e qualquer oposição politica era severamente reprimida.
A lembrança que guardo, do último ano vivido em Portugal, é de muitos sustos. A hierarquia que conhecera até então, havia sido quebrada.
Vi uma professora que, antes, praticava bullying com os alunos, ser acuada por alunas mais velhas, de maneira agressiva. Correra, pelos corredores do colégio, o boato de que o seu marido fazia parte da temida polícia secreta, a Pide.
Casais, até então muito “bem-casados”, chegavam aos tribunais pedindo o divórcio. Este direito, que havia sido aprovado inicialmente em 1910, era vedado aos católicos.
Filmes eróticos, como “Emanuelle”, estrearam nas salas de cinema, para escândalo de muitos e alegria de outros tantos.
As ruas, até então brilhantes de tão limpas, acumulavam lixo, e as paredes dos prédios e dos monumentos cobriram-se de cartazes políticos e pichações em vermelho.
Socialistas e comunistas engalfinhavam-se, enquanto os desalojados do poder tentavam contragolpes, sem muito sucesso.
Propriedades e empresas privadas foram espoliadas pelos empregados, ou estatizadas pelo governo, e milhares de cidadãos portugueses chegavam ao continente fugindo das ex-colônias.
Quem hoje requer a cidadania portuguesa, ou apenas visita Portugal a passeio, não tem noção do que se passou naquele primeiro ano e até mesmo nos seguintes, mas desses não posso falar porque não estava mais lá.
Sempre lamentei a minha ignorância sobre o que aconteceu nos anos pós-revolução. A primeira vez que aterrissei (aterrei) no Aeroporto da Portela, renomeado como Humberto Delgado, precisei fazer uma pesquisa na internet para saber quem foi esse senhor. A situação havia se invertido, eu não conhecia os heróis portugueses.
Toda esta longa introdução foi para dizer que gostei muito de encontrar o livro “Revolução”, escrito pelo jornalista português Hugo Gonçalves.
Trata-se de um romance que entrelaça os destinos de uma família durante os anos que antecederam a queda do regime ditatorial e aqueles que consolidaram a democracia.
A leitura fluiu veloz. Em diversos momentos reconheci situações que aconteceram bem próximas de mim, mas que, por conta da idade que tinha na época, não compreendi totalmente.
Nada como o distanciamento, de quase meio século, para se falar, de forma serena, dos “espinhos” escondidos nos cravos vermelhos, a flor que simbolizou a Revolução. Quando terminei o livro, as “pontas soltas” que eu tinha em relação à história recente de Portugal estavam todas amarradas.
Paula deve ser muito interessante mesmo !!
Obrigada pela resenha, vai entrar na minha lista .Bj
Oi Deborah, que bom encontrá-la por aqui. Obrigada pelo seu comentário. Quando quiser, posso emprestar o livro. ?
Achei engraçado encontrar um blog com o nome Fagulha no seu título, pois também eu lia sempre essa revista na minha juventude. Tinha 16 anos quando foi o 25 Abril de 1974 e, na verdade, estava um pouco longe da política. Depois o tempo e a vida ajudaram-me a perceber muita coisa.
As Fagulhas ficaram em casa de meus pais, no Algarve, quando vim estudar para Lisboa. Aqui, tudo novo, tudo a descobrir, um mundo que se abriu. As Fagulhas…provavelmente foram todas para o lixo. Nunca mais me tinha lembrado delas até encontrar hoje o seu blog.
Olá Dulce, que bom que o meu blog lhe trouxe lembranças da sua adolescência. Naquela época todas nós estávamos bem longe da política, tão diferente dos tempos atuais. Obrigada pelo seu comentário.