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Já leu este livro?

Já se passaram mais de 10 anos desde que trabalhei em livrarias. No último estabelecimento, além de ser vendedora, era responsável pela escolha e encomenda dos livros às editoras. Recordo até hoje da satisfação que sentia quando, depois de cortar cuidadosamente a fita que lacrava a caixa, retirava os livros recém-chegados e aspirava o cheiro característico de exemplares novos. Naquela época, era inimaginável achar graça em lugares apertados, repletos de livros usados com as capas e páginas prestes a se soltarem e cobertos de poeira. Dos sebos queria distância, os livros deveriam ser novos ou não me interessavam.
Pois é, mordi a língua. Desde que me voluntariei no CELPI ajudo na triagem dos livros, e nunca mais voltei para casa de mãos abanando.
Recentemente, interessei-me por um livro juvenil escrito por Angela Sommer-Bodenburg, a mesma autora da série O pequeno Vampiro, e que fez muito sucesso na década de oitenta.
Folheei distraída as páginas de Hanna, o anjo menorzinho de Deus e me interessei pelos diálogos, entre duas crianças, sobre anjos e o que imaginavam ser Deus. Com certeza seria uma leitura doce e engraçada.
Não demorou para perceber que não poderia estar mais enganada. A personagem Hanna é uma garotinha encantadora cheia de personalidade. Mesmo assim, a sua presença incomoda a mãe que ora a trata com rancor, ora com indiferença. Por sua vez, o irmão, Rodolfo, procura agradar a mãe de todas as maneiras, mas tudo o consegue é anular os próprios gostos e vontades. O coração da genitora é tão gelado que as crianças brincam dizendo que às vezes ele está no Canadá, outras vezes se encontra na Sibéria ou então no polo sul.
Certo dia, Rodolfo tem uma aula sobre os anjos. O menino se convence que a irmã é um anjinho enviado por Deus para derreter o coração da mãe.

“- Nós todos precisamos aprender o jeito certo de amar – respondo.
– Você acha que a mamãe consegue aprender isso?
-Acho. Pois é para isso que os anjos bem pequeninos são mandados para as famílias!
– Acontece que os anjos pequeninos também precisam de amor – retruca Hanna – e não só do bom Deus.”

Meu peito se apertou. Eu não teria coragem de oferecer esta história a uma criança. Como poderia expô-la à frieza de uma mãe? Meu desejo de esconder o livro (na verdade, censurá-lo) era de fazer sumir, como num passe de mágica, o lado feio da vida e preservar a inocência do pequeno leitor (a).
Infelizmente a realidade está aí, nua e crua, sendo filmada. Assisto horrorizada a um vídeo que circula nas redes sociais. Um homem caminha na frente de duas crianças. Subitamente ele se vira, dá um chute na própria filha, de apenas três anos, e a derruba. O motivo? O choro da menina o incomodava.
Não, as histórias que falam sobre maus-tratos não podem ser abafadas. Elas precisam ser lidas e mediadas em sala de aula, por professores atentos e acolhedores. Quem sabe, assim, qualquer criança que se reconheça na personagem de Hanna, o anjo menorzinho de Deus, não se sinta culpada pelo comportamento inadmissível de um adulto, e encontre coragem para apontar o seu agressor.
O livro mexeu tanto comigo que conversei sobre ele com uma amiga, que até pouco tempo era professora do ensino fundamental. Sua resposta foi sucinta e categórica: “Um livro que tem uma mãe megera, fala de anjos e com um final dúbio? Hoje em dia, não tem a menor possibilidade de ser adotado por uma escola.” Ela deve ter razão. Hanna, o anjo menorzinho de Deus livro está fora de catálogo.

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