
Durante os três anos que durou a pandemia a maioria de nós ficou assustada, ansiosa, entediada e dentro de casa. Tivemos tempo suficiente para reconhecer que, no afã dos dias corridos de antigamente, deixáramos de estar com amizades que nos faziam bem, e que essa situação precisava mudar.
Celina conversou com Ana Cristina, que, por sua vez, trocou ideias com a Mônica e aos poucos foi brotando uma ideia: E se criássemos um grupo de leitura?
Já que não podíamos nos abraçar, que, pelo menos, conversássemos sobre livros, minisséries, trocássemos receitas de pão (brincadeirinha), e dessemos muitas risadas, mesmo que virtualmente.
Esse arranjo se tornou tão conveniente que mesmo depois da vida voltar ao normal (qual seria o normal para viver?) continuamos a nos reunir dessa maneira. Criou-se o grupo Vamos Ler Juntas e o primeiro encontro aconteceu em 21 de maio de 2021. Posteriormente, o nome do grupo mudaria para Vamos Ler.
Como curiosidade, coloco a seguir as nossas primeiras leituras, junto com as do ano seguinte, as de 2023 e as de 2024
Ano passado começamos com A alma encantadora das ruas do João do Rio.
Prosseguimos com Siríaco e mister Charles do escritor cabo-verdiano, Joaquim Arena.
Este livro recebeu o Prêmio Oceanos de 2023, e faz parte de uma trilogia que o autor intitulou de Negropolitana (refere-se aos negros na Metrópole). Com ela, o autor procurou quebrar o silenciamento das populações negras, residentes na Europa, e mais especificamente em Portugal, desde o sec. XV. Fazem parte da trilogia: “Debaixo da nossa pele” e “As mortes do meu pai”.
Em março lemos Triste cuíca da Julia Wähmann. Escrito durante a pandemia, a autora relê os diários que escreveu ao longo da vida, compara com de outros escritores, enquanto anota e reflete sobre os dias intermináveis do confinamento.
É do que sinto mais falta. As intempéries corriqueiras, o cinema cheio ou o desencontro no ônibus. Qualquer coisa que não seja programada, automática.
Um cinema cheio, como senti saudades de uma sessão de cinema ao vivo! Logo no início, quando, finalmente, as salas voltaram a abrir, não foi uma nem duas vezes que as encontrei totalmente vazias. Depois, pouco a pouco, os cinéfilos foram regressando. Mas as normas de segurança continuaram rígidas. Era necessário respeitar o distanciamento de dois ou três lugares entre os assentos, tanto nas laterais, quanto à frente e atrás, e, claro, todo o mundo com máscaras no rosto.
Infelizmente, as salas nunca mais voltaram a encher como antes. O comodismo, de assistir a um filme em casa e poder parar a fita na hora que se quer, venceu. Não para mim e o meu marido. O escurinho do cinema e a tela gigante continuam sendo um dos nossos programas favoritos.
Abril trouxe a leitura de Leme da escritora portuguesa Madalena Sá Fernandes. Ganhei-o no Natal, da minha irmã que mora em Portugal. Ele mexeu tanto comigo, que fiz questão que entrasse na nossa seleção de leituras, assim que soube que o livro seria publicado pela editora Todavia.
O primeiro capítulo, que se resume a um só parágrafo, é forte, principalmente por acontecer durante o velório de um dos personagens principais da história. (não vou dar spoiler). A narrativa relata o relacionamento disfuncional da mãe da autora com o padastro, e de como isso afetou o crescimento emocional de uma criança. Na minha opinião, trata-se de uma leitura mais do que necessária, principalmente agora que assistimos a uma escalada, sem precedentes, de violência doméstica.
Cochilo de Deus, da escritora Raïssa Lettiére, foi o livro de maio. A obra atravessa séculos e histórias, unindo diversos personagens que, a priori, parecem não ter nada a ver uns com os outros. Foi uma leitura desconcertante. Quando terminei de ler não sabia dizer se tinha gostado ou não.
O livro de junho, O planalto e a estepe, do escritor angolano Pepetela, foi difícil de achar. Só conseguimos encontrá-lo em sebos porque, infelizmente, está esgotado.
Ele narra a história de um amor inter-racial, que se desenvolve em Moscou durante os anos da Guerra Fria. Este relacionamento não pode ir adiante por interferências do partido político, ao qual ambos pertenciam, que ironicamente pregava: Todos os homens são irmãos” e “Trabalhadores do mundo, uni-vos!”. Temas como racismo, guerra colonial e desilusões ideológicas atravessam esta história que agradou a todas nós.
O mesmo não posso dizer de A boba da corte, da Tati Bernardi. Algumas gostaram, outras detestaram. Num ponto todas concordaram, se o livro é uma autoficção, nenhuma de nós gostaria de conhecer e, muito menos, conviver com a escritora.
Em agosto quebramos uma regra que vinhamos mantendo desde que criamos o grupo: Nada de livros muito grandes. Mas como ignorar Um defeito de cor da escritora Ana Maria Gonçalves que acabara de entrar para a Academia Brasileira de Letras?
Dividimos o livro em quatro partes, cada uma correspondente a um mês de leitura. E assim, atravessamos as 947 páginas sem esforço. A leitura foi fascinante, repleta de histórias que mereciam se desdobrar em outros livros, tamanha era a força narrativa que possuíam.
Considero Um defeito de cor um clássico contemporâneo, tal qual Grande Sertão Veredas. Sua leitura é fundamental para conhecer e compreender o ciclo colonial pela perspectiva dos escravizados.
Se eu pudesse dar uma sugestão, diria para mergulhar nesta leitura sem se preocupar com o tempo que ela pode levar. Garanto que, ao terminar, o seu olhar sobre a formação da sociedade brasileira será de admiração e respeito.
Em dezembro o Vamos Ler saiu de férias.
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