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O louco de Deus no fim do mundo

A nova estante tem uma prateleira reservada para os livros que compro, ganho de presente ou que me emprestam. Eles aguardam pacientemente pelo dia em que receberão toda a minha atenção. Mesmo assim, sempre tem um recém-chegado que consegue furar a fila.

Isso aconteceu recentemente, quando pus de lado “O Silêncio”, escrito pelo japonês Shusaku Endo, que estava a reler. Verdade, não satisfeita em ter uma pilha à minha espera, de vez em quando, ainda procuro por algum livro que deixou saudades.

A história de “O Silêncio” se passa no Japão, no início do século XVII. Ela conta os desafios enfrentados por dois padres jesuítas para ajudar a pequena e incipiente comunidade cristã local, que sofria uma enorme perseguição por parte dos senhores de terras, os Shoguns. A difícil assimilação da fé católica pela cultura japonesa é descrita de maneira brilhante. Publicado em 1966, este romance, baseado em acontecimentos reais, virou filme nas mãos do diretor americano Martin Scorsese.

Talvez tenha sido a similaridade do tema – a viagem de um jesuíta a um lugar bem distante no continente asiático – ou a aproximação do tempo quaresmal, que me fez largar tudo e começar “O louco de Deus no fim do mundo”.

Logo nas primeiras páginas fui fisgada pela originalidade da situação proposta: como era possível que o Vaticano tivesse convidado um escritor, reconhecidamente ateu e anticlerical, para acompanhar o papa Francisco na sua viagem à Mongólia, e depois escrever sobre isso? Definitivamente, a Igreja não estava a procura de um escritor “chapa branca”, daqueles que escondem os múltiplos problemas que a instituição enfrenta.

O escolhido foi o espanhol Javier Cercas. Inicialmente ele achou a ideia absurda, mas depois, pensando melhor, chegou à conclusão que seria a chance de confirmar o que a sua mãe, católica fervorosa, vinha dizendo desde que ficara viúva: que depois de morrer, ela iria se encontrar com o marido. Se ele fizesse essa viagem poderia perguntar, diretamente ao papa, se, realmente, existe a ressurreição da carne e a vida eterna.

Sempre gostei do papa Francisco. Um papa que veio de longe, quebrando a hegemonia dos consecutivos papas europeus; de sorriso bonachão que me lembrava o comediante Stan Laurel da dupla O gordo e o magro; e da sua ojeriza à ostentação, mesmo sendo inerente ao novo cargo eclesiástico ao qual fora alçado.

Até hoje lembro da recusa em substituir os surrados sapatos pretos pelos múleos, cheios de simbolismos, calçados, até então, pelos antecessores. Mas do que eu mais gostei, de verdade, foi da sua preocupação pelos excluídos, os periféricos, quer isto acontecesse por razões geográficas, sociais ou existenciais; do desejo em incluir “todos, todos, todos”, como disse durante a Jornada Mundial da Juventude em Lisboa, e de querer tocar o coração dos que, pelos mais diversos motivos, se sentiam abandonados.

Recordo, também, quando, na sua primeira viagem como papa, ao ser questionado sobre um tema espinhoso para a Igreja, Jorge Bergoglio, disse: “Se uma pessoa é gay, busca Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?”

O livro apresenta várias facetas luminosas do papa, algumas curiosas como a decisão de não ver mais televisão, mesmo que isso o impedisse de assistir aos jogos de futebol do seu time argentino, e outras características nada simpáticas da sua personalidade. Alguns membros da Companhia de Jesus argentina o acusaram de ser uma pessoa individualista, dura, soberba, autoritária e intimidatória.

Um ponto que me agradou n’ O Louco de Deus no Fim do Mundo foi a menção ao trabalho realizado pelos missionários, nas comunidades mais remotas do planeta, descrito com admiração e respeito. Fiquei com a impressão que o escritor considera esses religiosos os verdadeiros santos da atualidade.

Aprendi também que os missionários, ao chegarem a um lugar que desconhece o cristianismo, não se apresentam mais como os detentores da Verdade. Primeiro, buscam conhecer os costumes, falar o idioma local, inserir-se na comunidade. Através do seu exemplo de vida, aguardam que os habitantes se interessem pelo que eles têm a dizer, para só então iniciar a evangelização. A esse novo jeito de agir chama-se inculturação.

Gostei muito de O louco de Deus no Fim do Mundo. Por ter sido escrito por um ateu não é uma leitura carola. No meio de tantos acontecimentos e notícias que procuram nos puxar para baixo, ele foi uma lufada de esperança e ânimo. Pessoas de crenças e visões do mundo diferentes podem se entender sim, desde que abaixem as armas e as vozes. A isso se chama diálogo.

10 comentários

  1. papa Francisco sempre surpreendendo, e a Fagulha também, obrigada pela indicação! Será que o escritor conseguiu resposta para a pergunta que o motivou a acompanhar o papa?

  2. Ótima reflexão sobre os dois livros. Vi o filme do Scorcese, a partir do livro “Silêncio” e me deu muita vontade de ler agora o do Javier Cercas!

    1. Segundo a editora, que publicou o livro no Brasil, trata-se de um romance sem ficção que combina crônica com ensaio, biografia e memórias pessoais. O mais curioso é que essa mistura dá certo.

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