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Bordados e Casamentos

a-vida-nao-e-justa

Aconteceu de novo! Mais uma vez fui seduzida pela capa e o título de um livro. Como se tivessem sido marcadas a fogo, letras garrafais vermelhas alardeiam uma verdade difícil de aceitar: A VIDA NÃO É JUSTA.

Embaixo do título vê-se o contorno de um casal bordado em linha marrom. O homem passa o braço sobre os ombros da mulher que caminha cabisbaixa. É possível que a esteja beijando ou talvez tentando consolá-la.  Do bordado saem fios repuxados em várias direções que, com certeza, terminarão por desfazer o desenho.

O livro, apesar de não o ser mais, está exposto entre lançamentos. Folheio-o um tanto distraída, mas aos poucos me detenho para ler uma frase, depois outra e mais outra.

Nunca aprendera que duas angústias silenciosas apodrecem as almas e contaminam, de forma devastadora, qualquer vida em comum. Sobra o deserto. E o silêncio”.

Deve ser verdade que a paixão priva os sentidos. Não fosse isso, como seria possível que alguém prometesse ao outro fidelidade, amor, todos os dias da vida, até a morte?”

Andréa Pachá, a autora do livro, é juíza de Família. Em sua sala escuta um pouco de tudo, quer seja o fim de um sonho idealizado a dois, ou o reconhecimento de laços de parentesco, até então indesejados ou desconhecidos. Mas, e ainda bem, eventualmente presencia e comemora outras histórias de vida, que falam de reconciliações e recomeços.

Mesmo que ao terminar uma ou outra crônica o leitor possa ficar com um travo amargo na boca, a vontade de prosseguir com a leitura não arrefece, tal é a delicadeza e sensibilidade com que Andréa conta as histórias que chegaram até ela por empréstimo.

Gostaria de acreditar que uma relação sentimental pode ser comparada a um bordado. A cada dia, ou ano que passa, novos pontos são dados com segurança e maestria, sempre tomando cuidado para não arreganhar o tecido. Se o desenho não estiver bonito, desfaz-se alguns para que eles não estraguem o que foi costurado até agora. Se a cor utilizada torna o conjunto monótono, outros tons podem e devem ser acrescentados. Casamentos assim como os bordados, construídos com carinho e paciência, deveriam ser para toda a vida. Infelizmente, a vida não é justa.

 

  • A vida não é justa

Andréa Pachá

Editora Agir

R$ 29,90

5 comentários

  1. Deve ser interessante este livro. Já vale pelas duas frases que você colocou , Paula. E como bordo, adorei sua analogia, ao mesmo tempo realista e poética.

  2. Paula querida, ao ler hoje o seu Bordados e Casamentos, lembrei de uma bela canção
    do Gilberto Gil, A linha e o linho. Beijo da Celina

    É a sua vida que eu quero bordar na minha
    Como se eu fosse o pano e você fosse a linha
    E a agulha do real nas mãos da fantasia
    Fosse bordando ponto a ponto nosso dia-a-dia
    E fosse aparecendo aos poucos nosso amor
    Os nossos sentimentos loucos, nosso amor
    O zig-zag do tormento, as cores da alegria
    A curva generosa da compreensão
    Formando a pétala da rosa, da paixão
    A sua vida o meu caminho, nosso amor
    Você a linha e eu o linho, nosso amor
    Nossa colcha de cama, nossa toalha de mesa
    Reproduzidos no bordado
    A casa, a estrada, a correnteza
    O sol, a ave, a árvore, o ninho da beleza

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