Todo final de ano me deleito escolhendo o tema para o novo calendário ilustrado que irei pendurar na parede da cozinha. Já o tive com pintores impressionistas; propagandas do início do século passado; faróis solitários à beira mar e alpendres de casas norte-americanas. O deste ano foi Arte Ambiental.
Cada mês mostra o trabalho artístico feito por um profissional diferente, colocado em um espaço aberto e sua perfeita integração na natureza. Algumas dessas obras se perpetuarão por dezenas de anos, outras sobreviverão apenas por alguns dias ou até mesmo horas.
Diante da mesa onde costumo rabiscar a lista do que está faltando na despensa, observo a imagem do mês de fevereiro. A paisagem retrata uma região inóspita com montanhas marcadas por profundos sulcos, e dividida ao meio por um rio de águas serenas e escuras. A monotonia do cenário foi quebrada pela rede de transmissão de energia elétrica.
O interessante é que não se trata de uma rede convencional. Cada torre ou pilar é uma escultura estilizada de um ser humano. De braços erguidos essas representações artísticas são os suportes para os fios de alta tensão elétrica.
Impossível não se extasiar com a criatividade e leveza do projeto dos arquitetos Jin Choi e Thomas Shine. As torres além de se integrarem maravilhosamente à imensidão que as rodeia também a valorizam. E aquela região agreste passou a ser conhecida como A Terra dos Gigantes.
Entretanto o que mais me chamou a atenção foi a sensibilidade dos governantes em unir as necessidades elétricas da população a uma obra de arte.
Não conheço a Islândia, mas imagino que se já estão embelezando regiões remotas é porque o essencial está ao alcance de todos. Talvez, mas também é possível que os islandeses acreditem que a valorização de qualquer expressão artística – seja teatro, música, literatura ou artes plásticas – reforça a cidadania, além de estimular os indivíduos a serem mais exigentes de seus direitos e cumpridores de seus deveres.
Quem sabe um dia chegaremos lá.