Comecei 2019 animada, com vontade de escrever mais, muito mais. Por essa razão, inscrevi-me na primeira oficina do ano no Instituto Estação das Letras : Mergulho na Escrita, ministrada pela Silvia Carvão.
O grupo de participantes era pequeno. Talvez porque os encontros aconteceram no turno da manhã ou porque muita gente ainda estava de férias. Para nós, isso foi ótimo porque a interação aconteceu mais rapidamente. Durante cinco manhãs consecutivas as preocupações do cotidiano nem chegaram a arranhar a bolha de encantamento que Silvia preparou para nós.
Ouvimos canções de artistas brasileiros (não direi quais para não estragar a surpresa de futuros participantes, apesar de ter certeza que Silvia renova o seu repertório a cada oficina), brincamos com os nossos nomes próprios, relembramos cenas da infância, criamos personagens, inventamos histórias e fizemos uma infinidade de outras atividades.
Graças ao jeito acolhedor de Silvia, minhas colegas e eu escrevíamos velozmente sem nos preocuparmos com certo ou errado. As ideias simplesmente brotavam no papel. Entre uma atividade e outra, Silvia lia para nós.
Numa tarde, depois de um dia do curso, fui visitar uma amiga que se encontrava hospitalizada. Faltava pouco para ser operada , mas além de estar amedrontada, o tempo que restava para a realização do procedimento custava-lhe a passar. Tentei distraí-la sem muito sucesso. Não sabia mais o que dizer quando lembrei dos textos que escutara de manhã.
Li um, dois e um terceiro que, por fim, a fez sorrir. Logo chegaram os enfermeiros.
Como era previsto, tudo correu bem. Dias depois voltei a visitá-la. Bem disposta e com o semblante tranquilo, minha amiga pediu: Paula, conte de novo a história do diabinho.
E foi o que eu fiz.
Aconteceu às quatro da tarde, em plena luz do dia. O menino estava lá, espichado como um gato, na rede em seu quarto. Caderno e lápis na mão. Balançando suavemente, estava inventando uma história, quando viu pela janela o diabo pulando o portão de sua casa.
Estremeceu. Seus pais haviam saído para fazer compras e sua irmã ainda não voltara da escola.
O diabo veio caminhando pelo jardim, em direção à porta, pisoteando as margaridas que se insinuavam ao vento. Na hora o menino pensou que o diabo, com seus poderes demoníacos ia atravessar as paredes, mas ele simplesmente deu um sopro diabólico e seu bafo insuportável derreteu a porta instantaneamente. Depois, ao chegar no quarto e ver o menino apavorado na rede, deu um sorrisinho perverso e , exalando seu mau cheiro infernal, disse diabolicamente:
– Vim te pegar, garoto. Vou te levar pro inferno.
Mas aí inesperadamente, o menino perdeu o medo. Espichou-se então pela rede, todo belo e formoso, sem dar a mínima pro diabo.
– Você não pode me pegar – o menino disse.
-Posso – reagiu o diabo avançando com a sua cara de mau.
O menino retrucou:
– Não pode!
O diabo ficou mais endiabrado ainda e esbravejou:
– Por que não?
– Porque eu posso parar de escrever – disse o menino.
E parou.
(Carrascoza, João Anzanello. Nova Escola, Abril de 1991)
Em silêncio, agradeci a Silvia que, sem saber, transformou histórias num santo remédio.

Adorei
Paula, que delícia ler seu depoimento, um bálsamo no meio deste retrocesso que estamos vivendo E quanta generosidade em compartilhar textos, livros e afetos. Realmente foi um presente tê-la na oficina. Gratidão! Bjs poéticos
Olá Silvia, quem ganhou um belíssimo presente fui eu! Espero revê-la em breve. Beijo
Republicou isso em Site de Joice Souza Oficial.
Muito legal esse post. Faz algum tempo que eu procurava esse conto em livros depois de tê-lo lido quando criança (há?25 anos atrás) na internet é em livros mas não o achava.
Sabes me dizer como é o nome do livro tipo caderno que tem essa história e muitas outras
Oi Andressa, muito obrigada por seguir o meu blog. Infelizmente não tenho mais informações a dar além daquelas que constam no post. Entrei em contato com a professora e ela também não soube me dizer como chegou a esse texto tão lindo do João Anzanello Carrascoza. Parece que uma aluna de outra turma lhe ofereceu, mas ela ficou de procurar. Se achar me avisa e eu coloco aqui. Beijo
gostei do post
Obrigada, Joice. Tenho escrito pouco por aqui, mas é bom saber que os meus posts agradaram.