Ainda não tinha completado dois anos de Rio de Janeiro quando precisei me mudar de novo.
Mesmo com ajuda de pessoas especializadas, mudanças são sempre uma fonte de stress, principalmente ao chegar no novo endereço. São caixas e caixas para abrir; móveis pesados que precisam ser colocados rapidamente nos seus definitivos lugares; louças e roupa de cama para guardar; quadros encostados nas paredes a espera de serem pendurados; e pilhas de livros que eventualmente, num dia em que eu estiver de muito bom humor, serão organizados por ordem alfabética.
Desta vez, como se não houvesse tumulto suficiente ao meu redor, na mesma época fiz uma substituição equivocada das lentes multifocais dos óculos, que me impediu de ler ou escrever por mais de um mês.
Antes que o desespero batesse, lembrei da recomendação feita por uma amiga, sobre uma outra forma de leitura: os audiolivros.
Baixei o aplicativo no celular e escolhi Educated de Tara Westover. As referências eram as melhores possíveis: finalista de diversos prêmios, considerado pelo jornal New York Times um dos livros mais importantes de 2018 e superindicado por dois “pesos pesados”, Bill Gates e Barack Obama.
Receava, no entanto, perder muita coisa por causa do meu inglês enferrujado. Felizmente, a nitidez da voz da leitora guia foi uma grata surpresa. Não só compreendia praticamente tudo, como estava recebendo “aulas” gratuitas em situações que sempre considerei como entediantes: engarrafamentos de trânsito e salas de espera dos consultórios médicos.
A tradução de Educated para o português foi A Menina da Montanha. Na minha opinião, um título piegas que não consegue transmitir toda a força de uma narrativa verídica.

Durante anos Tara viveu com os pais e os irmãos isolada numa montanha. Por questões religiosas e muita maluquice, o pai não acreditava no ensino tradicional, nas vacinas, nem nas instituições governamentais.
Quem a ensinou a ler foi um dos irmãos mais velhos e todas as leituras eram feitas no único livro a que tinha acesso: as escrituras sagradas do livro dos mórmons. Na adolescência começou a estudar por conta própria.
Diferentemente do que acontece no Brasil, nos EUA é possível entrar numa universidade sem ter frequentado uma escola formal. Basta comprovar, através de um exame, possuir os necessários conhecimentos acadêmicos.
Aos poucos, as gigantescas lacunas no currículo foram sendo superadas e a autora conseguiu terminar os estudos universitários com louvor. Depois obteve bolsas de estudos para concluir um mestrado e um doutorado na universidade de Cambridge na Inglaterra.
Todos essas conquistas foram acompanhadas de muito sofrimento. Como conciliar duas realidades tão distintas? Aquela onde cresceu e a que o mundo exterior lhe mostrava.
À medida que a instrução lhe abria novos horizontes, as verdades até então inquestionáveis revelavam-se obscurantistas e paranoicas. Não foi fácil admitir que sob as regras asfixiantes do pai, ela havia sofrido mãos tratos físicos e psicológicos.
Terminei a leitura de Educated (ou A Menina da Montanha) com vontade de indicá-lo a toda a gente. Não importando como cada um a faria. Tanto poderia ser da forma tradicional, em e-book ou do jeito que eu fiz. Para quem nunca ouviu um audiolivro, tenho certeza que será uma experiência muito interessante.
Será um livro que vou ler.
O meu tempo é pouco mas a sua experiência me deu uma vontade de ir e começar hoje.
A estória parece linda e especialmente verdadeira.
Obrigada sempre por nos orientar.
Você toca o coração das pessoas da maneira que escreve.
Obrigada!
Quando se tem pouco tempo ele não pode ser desperdiçado. Espero que Educated lhe toque tanto quanto tocou a mim. Depois me diga o que achou e boa leitura!
Eu ainda não experimentei um audio livro. Cheguei a baixar um aplicativo. Não sei, talvez eu não tenha feito um boa busca .
No momento estou lendo “Maybe you should talk to someone” da escritora e psicanalista Lori Gottlieb. O livro ainda não foi publicado no Brasil, o que é uma pena. Mais uma vez, por não dominar totalmente o inglês, perco alguma coisa, mas estou simplesmente amando!
Bem vinda ao audiobook, Fagulha! Obrigada pela dica do Educated, amei e me lembrou o filme Capitão Fantástico, achei Educated mais original e emocionante.
Olá!
Interessante a forma como você apresentou o livro, falando um pouco de sua experiência de leitura/escuta.
Ainda não experimentei um audiolivro, mas, como você disse, é uma boa opção para aqueles momentos chatos do dia a dia, como os congestionamentos.
Esse livro vai para minha lista de leitura. Acho que, embora seja o relato de vida de uma americana, a história talvez não esteja tão distante assim da nossa realidade, já que muita gente por aqui tem importado paranoias como essa de que você falou.
Um abraço,
Eriane
http://www.historiasemmim.com.br
Olá Eriane, (achei lindo o seu nome)
Em dado momento do livro pensei igual a você. Num país como o nosso com tantas desigualdades, quando se começa a levantar a hipótese de implantar o ensino domiciliar dá-me até arrepios. Quantas barbaridades não poderão ser lecionadas como verdadeiras?
Abraço,
Paula
Poderia me reenviar a lista dos livros que já ganhou de presente? Estava lendo muito interessada e, de repente, desapareceu da tela. Muito obrigada.
Os livros que ganhei de presente foram:
As verdadeiras riquezas – Kaouther Adimi
Três mulheres – Lisa Taddeo
Torto Arado – Itamar Vieira Junior
A ridícula ideia de nunca mais te ver – Rosa Montero
A criança no tempo – Ian McEwan
Tudo que é belo: quarenta e cinco histórias reais – org. Catherine Burns
Os livros que eu dei no Natal foram:
PorVentura – Mauro Ventura
Metrópole à beira-mar – Ruy Castro
No momento, ouço em inglês “Um casamento americano” de Tayari Jones (já saiu no Brasil) e estou AMANDO!