
Finalmente consegui riscar da minha lista 100 coisas para fazer antes de morrer uma ida à Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP).
Realizei esse desejo antigo na companhia de uma amiga muito querida com quem compartilho dicas e trocas de livros.
Apesar de a pousada que escolhemos não se localizar no centro histórico onde todo o buchicho acontecia, encontrava-se perto o suficiente para não nos cansarmos em longas caminhadas. Logo na segunda noite descobrimos que ela tinha uma enorme vantagem em relação as demais. A nossa pousada era das poucas que possuía gerador, um dispositivo fundamental para enfrentar a falta de luz que aconteceu quando o céu foi riscado por raios e bombardeado por furiosos trovões. Era o fim de um dia sufocante e o início de uma noite caótica.
Assim como no ano passado, o Festival realizou-se em novembro. Durante a pandemia ele ocorreu de forma virtual, mas antes disso era em julho. Um mês que costuma ter um friozinho gostoso, perfeito para perambular pelas ruas de pedras redondas e traiçoeiras da vila; bebericar uma caipirinha Jorge Amado (o drink local de Paraty feito com maracujá e a cachaça da região. Sem açúcar por favor, porque o destilado é bem doce) e assistir aos diversos debates e palestras nas casas parceiras da FLIP sem ares-condicionados. Definitivamente livros não combinam com calor.
Compramos ingressos para três mesas oficiais da FLIP. A primeira foi sobre Pagú a escritora homenageada no Festival deste ano. Confesso que achei decepcionante. Os debatedores eram acadêmicos demais e um deles, mesmo falando fluentemente o português, tinha uma pronúncia estrangeira fortíssima que tornava suas falas cansativas de acompanhar.
A segunda mesa foi uma surpresa. Apesar de eu querer comprar os ingressos para assistir a escritora Socorro Acioly errei e adquiri outros com o escritor moçambicano Manuel Mutimucuio. Faço um aparte para dizer que achei o site de compra dos ingressos bastante confuso. Tenho a impressão que fui redirecionada para outra mesa depois que a da escritora cearense lotou.
Não sabia o que esperar, era a primeira vez que ouvia esse nome. Mas assim que ele pisou no palco simpatizei com a figura alta e esguia do escritor, com o seu sorriso largo e amistoso. De fala mansa e gesticulação suave ele conquistou a plateia ao falar da sua terra natal e da dificuldade em se adotar o português como língua oficial, quando a maioria da população vive no interior e fala diversos dialetos. No seu primeiro livro lançado no Brasil Mutimucuio faz uma provocação: se é para usar a língua do colonizador porque não optar logo pelo inglês a mandachuva de todas as línguas ocidentais.
Numa casa paralela à programação oficial da FLIP conheci e me encantei pela escritora portuguesa Joana Bértholo. Ela falou sobre o seu livro “Natureza Urbana”, que assim como o do Mutimucuio, faz parte da coleção Gira (trocadilho com a gíria portuguesa giro(a) que tanto pode significar bonito, engraçado ou interessante) publicada pela editora Dublinense.
As ideias expostas pela Joana possuíam um frescor de novidade e fluíram de maneira articulada. Quando terminou meus olhos brilhavam entusiasmados. Claro que adquiri o livro, uma novela ágil que li em poucas horas e é claro que recomendo.
A terceira mesa oficial que assisti foi com a escritora alemã Nora Krug autora do romance gráfico “Heimat”. Trata-se de um livro de memórias sobre como os seus antepassados compactuaram ou não com o nazismo e de como a atual geração se sente ao carregar um passado tão sombrio. Inclusive já falei sobre ele aqui neste blog.
Voltei para casa com a sacola carregadinha de livros. Além dos livros do Mutimucuio e da Bértholo adquiri “Oração para desaparecer” da Socorro Acioli, “O que é meu” do José Henrique Bortoluci e “Sebastião” um livro infantil escrito a quatro mãos por Claudio Fragata e Janaina de Figueiredo. Mas deles e principalmente do último falarei no próximo post.
Que prazer ler a Fagulha sobre a nossa FLIP Que prazer ter voltado à FLIP em tão boa companhia de quem sabe tudo sobre o panorama atual dos livros! Gratidão, minha amiga!!
Ano que vem tem mais!