
Quando decidi ir pela primeira vez à FLIP, pensei nos debates que iria assistir, nos escritores que encontraria nas ruas instáveis de Paraty, nas tietagens que faria aos meus ilustradores favoritos, enfim, participar como espectadora da festa literária.
As coisas tomaram um outro rumo depois que a editora do meu livro infantil Cabe mais um? perguntou se eu teria interesse em participar de uma mesa literária para falar do luto.
No primeiro momento fiquei assustada. Nunca tinha feito algo parecido. Quando converso sobre os livros que escrevi, as plateias são formadas por crianças de até 10 anos, que se encontram nas respectivas salas de aulas e são supervisionadas pelas professoras que intervêm se necessário. Mas depois de pensar com calma resolvi enfrentar o desafio. Afinal, era uma oportunidade única para uma escritora iniciante apresentar o próprio trabalho.
A ideia de escrever sobre a morte sempre me perseguiu desde que o meu terceiro filho, com apenas cinco anos, ficou angustiado ao perceber que as pessoas que ele amava um dia iriam morrer. Na época não existiam muitos livros que abordassem o assunto. Por sorte encontrei uma resposta tranquilizadora no livro Pingo de Luz, da escritora Gislaine Maria d’Assumpção.
À medida que o dia do evento se aproximava fiquei sabendo que o tema da mesa seria mais complexo: “O trágico e os temas fraturantes na literatura infantil”. Uau! Foi a minha primeira reação. O.k., falar da morte e do luto não são exatamente assuntos dos mais divertidos, mas daí a tratar de algo que vai acontecer a todo dos nós – quer a gente queira ou não – como trágico e fraturante, era na minha opinião um tanto ou quanto exagerado. O meu livro, na verdade, abordava a morte com leveza e um pouco de humor. A expectativa só crescia.
Na véspera do encontro pude ler o livro Sebastião, escrito a quatro mãos por Cláudio Fragata e Janaína de Figueiredo, que seria lançado logo após a nossa conversa. Os escritores fariam parte da mesa, junto com o ilustrador Rodrigo Mafra. Com efeito o livro tratava de uma realidade trágica e fraturante: as catástrofes naturais que arrasam com tudo por onde passam, ceifando desnecessariamente muitas vidas. O que mais me impressionou foi a maneira como os autores conseguiram abordar de maneira sensível e sofrida a perda não só de parentes e amigos, mas também das casas onde o personagem principal e outros moradores viviam. Tudo arrasado em poucas horas, tudo levado pela lama formada pelas chuvas torrenciais que caíram à noite.
Como ignorar um evento que se repete invariavelmente pelo país afora e que cujas consequências se tornam cada vez mais agudas por conta das mudanças climáticas extremadas?
Sim, perder quem amamos é sofrido, e precisamos conversar com as crianças para que elas possam expressar seus sentimentos e vivenciar o luto. Mas tão importante quanto é falar das perdas que não fazem sentido e poderiam ser evitadas, se a sociedade não virasse as costas aos mais vulneráveis e aos alertas que a natureza dá.
Para modificar essa realidade continuo acreditando no poder transformador da educação, aliada à literatura. Quem sabe, um dia, tragédias como a narrada em Sebastião serão coisa do passado?