Mais um ano está prestes a terminar e é hora de lembrar as leituras que foram feitas pelo grupo virtual Vamos Ler.
Criado durante a pandemia ele é formado por oito amigas, sendo que sete estudaram na mesma sala, no colégio Teresiano do Rio de Janeiro. A oitava se integrou tão bem que parece que a conhecemos desde sempre, que é o mesmo que dizer desde meados dos anos setenta do século passado!
Algumas de nós não se viam desde aquela época, mas a sintonia das amizades feitas na adolescência ressurgiu naturalmente assim que Celina e Ana Cristina decidiram “sacudir” o período de isolamento. A lembrança de um nome puxou um outro e um terceiro, e logo o grupo estava formado e do tamanho certo.
Reunimo-nos uma vez por mês, tomando cuidado para que o encontro não comece muito tarde. Afinal, a Regina mora em Abu Dhabi e a diferença de horário é de 7 horas.
Continuamos mantendo algumas regrinhas para não nos soterrarmos na infinidade de livros que nos interessam:
1ª Só lemos escritores da língua portuguesa. Não importa se são brasileiros, lusos, angolanos, moçambicanos, cabo-verdianos ou timorenses.
2ª Nunca repetimos um escritor por mais que a gente se apaixone por ele. Temos que dar vez aos que ainda não conhecemos.
3ª Se a maioria não estiver gostando do livro escolhido, ele é posto de lado. Simples assim. Leitura é prazer e não castigo.
As leituras feitas em 2024 foram as seguintes:
Janeiro –O retorno (Dulce Maria Cardoso) – Amo esse livro. Não sosseguei enquanto as minhas amigas não o conhecessem também. Na verdade sou fã da escritora.
Fevereiro – Sob o olhar do guardião (Juca Serrado) O autor é carioca e escreveu um suspense histórico que vem desde a época dos Templários, passa pela construção da estátua do Cristo Redentor e chega aos dias de hoje.
Março – Os nossos multiplos afazeres impediram que lêssemos alguma coisa em conjunto.
Abril – Natureza Urbana (Joana Bertholo) – A escritora foi uma boa descoberta que Celina e eu fizemos quando participamos da Feira Literária de Paraty do ano passado.
Maio – Copo Vazio (Natália Timerman) – A leitura mexeu com as emoções. Como ser largada assim, de uma hora para a outra, sem qualquer sinal de que a relação amorosa que mal havia começado estava terminada? Esse sumir na vida, sem uma conversa, deixou-me revoltada. Mas pelo que tenho lido nas redes sociais é o que mais acontece.
Junho – A Relíquia (Eça de Queiroz) – Foi a vez de dar voz a um clássico da literatura portuguesa. Ri muito e arregalei os olhos imaginando o escândalo que não deve ter sido quando foi publicado em Lisboa no séc. XIX. Achei as descrições de Jerusalém minuciosas demais e cansativas. Reconheço, no entanto, que por falta de cinema ou televisão, esse era o jeito do leitor visualizar e se embrenhar no lugar descrito.
Julho – Como nem todas conseguiram terminar a leitura d’A Relíquia, optamos por comentar sobre um filme que concorrera ao Oscar de melhor filme estrangeiro: Sala de professores do diretor Iker Çatak.
Uau! O filme impactou a todas, e as conversas foram muito ricas. Temas como racismo, xenofobia, bullying e a crise no sistema educacional foram debatidos à exaustão.
Agosto – O que é meu (José Henrique Bortoluci). O autor foi outra descoberta da Flip do ano passado. O livro entrelaça os relatos do pai do autor, caminhoneiro por profissão, com o projeto expansionista do governo brasileiro que queria chegar aos lugares mais distantes e desconhecidos do país. Tudo temperado por muito amor filial.
Setembro – Misericórdia (Lídia Jorge) Uma leitura surpreendente. Posso afirmar que este foi o livro que mais me agradou de todos que li com o grupo. Uma leitura admirável sobre a velhice e de todas as possibilidades que a vida oferece até ao derradeiro momento.
Outubro – Bambino a Roma (Chico Buarque de Holanda) Perdi a má vontade que tinha em relação ao Chico escritor. Como compositor para mim é o número um, hors-concours de qualquer classificação ou categoria. Mas se eu tiver que limpar a estante ele não será poupado.
Novembro – Índice médio de Felicidade (David Machado) Li este livro há sete anos. Se ele sobreviveu a duas mudanças de casa é porque gostei muito dele. O curioso é que não me lembrava bem da história, e ao fazer a segunda leitura eu era uma outra leitora, uma outra pessoa. Situações descritas que me haviam incomodado e parecido exageradas, agora me incomodavam pela premonição e por terem se tornado banais. Mesmo assim, a mensagem final é clara, ou cuidamos do nosso próximo ou pereceremos moralmente como pessoas e sociedade.
Fechei o livro e uma palavra de origem africana ressoou em mim: Ubuntu, ubuntu… Difícil de traduzir, ela resume a ideia de que precisamos parar de pensar em termos individuais e começarmos a cuidar da Comunidade.
O que desejo para 2025? Ubuntu para todos nós.
P.S. Lemos também em junho Futuro Ancestral do Ailton Krenak, 1º indígena a entrar para a Academia de Letras.