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Uma corrida de táxi

Era final de tarde quando saí da livraria no Jardim Botânico. Levava comigo um livro de poesias, o abraço da autora, e um pássaro em origami feito por mim.

Na rua havia um ponto de táxi. Entrei no primeiro da fila. O sinal estava fechado. Depois de perguntar para onde eu ia, o motorista apontou para um senhor de óculos e camiseta vermelha que caminhava pela calçada.

– Está vendo aquele cara ali? Trabalha como porteiro em um prédio aqui da rua. O síndico já avisou que, quando morrer, vai deixar o apartamento pra ele. São amigos há anos. Esse senhor também pagou os estudos do filho do porteiro que está quase terminando o curso de engenheiro.

– Que gesto bacana. – respondi para ser simpática.

– Mas ele não é o único a fazer esse tipo de coisa. Conheci uma senhora dona de um apartamento com vista pra Lagoa. Ela deixou escrito no testamento que a única sobrinha não ia ganhar nada! Parece que a garota só a visitava quando precisava de alguma coisa.

– Deixou isso escrito, desse jeito mesmo, no testamento? – perguntei surpresa.

– Assim mesmo. – respondeu enfático – O apartamento ficou pra advogada e pra faxineira. Depois que ele foi vendido, a empregada comprou outro em Copacabana para morar, e um menorzinho na Lapa, que ela aluga. Ficou muito bem de vida, podia ter virado madame, mas, continuou trabalhando. Volta e meia eu a vejo por aqui.

O trânsito fluía bem, e animado continuou:

– A senhora conhece o XYZ, jogador de futebol? Às vezes eu faço uns bicos para ele. Gente boa. Tem uma mansão num condomínio perto de Angra e deu uma casa para cada um dos oito funcionários. Os que pagavam aluguel ganharam uma casa no mesmo bairro onde moravam, e os que já tinham casa própria receberam R$150.000,00, cada um.

– Uau! Nunca imaginei que XYZ fizesse esse tipo de coisa. Pena que a mídia só noticie as besteiras que ele faz dentro e fora de campo.

– Também pagou a festa de casamento da ex-mulher. E olhe que foi um festão com tudo o que tem direito. – disse balançando a cabeça satisfeito.

Desta vez, permaneci calada. Queria ver até onde essa conversa ia chegar. Será que essa enxurrada de histórias generosas era para amolecer o meu coração? Será que no final da corrida ele ia tentar me empurrar alguns números de um bingo fajuto?

Ao chegarmos na praça da Gávea, o motorista desviou para a esquerda e mudou de assunto.

Disse-me que a mãe vinha de uma família muito pobre, mas que o seu pai possuía uma fazenda lá para os lados de Barra de Piraí. Ele estava com setenta e poucos anos quando acolheu uma jovem grávida, que havia sido expulsa de casa pelo próprio pai. A criança nasceu e o dono da fazenda a perfilhou. Pouco tempo depois, foi a vez do fazendeiro engravidar a mocinha que, na época, tinha dezesseis anos. Dessa união, ele nasceu.

Atento ao trânsito, o condutor não pôde ver meus olhos se arregalarem.

– Foi um casamento feliz, durou vinte anos! – lembrou nostálgico.

Claro, que foi um casamento feliz – pensei com os meus botões – principalmente para o velhote que teve uma mulher jovem cuidando dele até o fim.

Repousei o meu olhar nas figueiras majestosas que velozes passavam por nós, e segurei o suspiro reprovador que insistia em sair. Afinal, quem era eu para emitir qualquer julgamento de valores sobre a diferença de idades de seus genitores? Sentado no banco da frente estava um homem feliz, sereno com as suas origens e orgulhoso da história de amor dos pais.

Logo depois, cheguei ao meu destino. Agradeci ao motorista as histórias que me contou. Sem saber, ele havia transformado uma corrida banal de táxi em uma crônica. Caprichei na gorjeta e desci do carro sorrindo.

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O livro que trouxe comigo é CAFÉ COM PÁSSAROS de karla ganant, publicado pela editora Urutau. Super recomendo.

6 comentários

  1. Adoro crônicas! Esta, em especial, é muito interessante! Um retrato perfeito dos taxistas do Rio. Parabéns!

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